Capítulo 01 —
Ly Thy Ker conheceu a vila de Sa Pa quando ainda era um enclave nas montanhas, e viu-a crescer até se tornar no destino turístico agitado que é hoje.
Capítulo 02 —
Ker é uma jovem mãe de dois filhos da etnia H'Mong Negra e trabalha em regime de meio tempo como guia turística, levando os viajantes em caminhadas para um vislumbre do seu mundo. Aqui ela fala sobre a sua vida e partilha ideias para visitantes que procuram mergulhar na vida de Sa Pa.
Por que razão devem os viajantes vir a Sa Pa?
Acho que as pessoas devem vir aqui para ver as paisagens deslumbrantes — os campos de arroz e as montanhas — e também para ver como vivemos e como é a nossa cultura. Temos 93 aldeias e povoados em Sa Pa e seis grupos étnicos minoritários: os H'mong, os Dao, os Tay, os Giay, os Xa Pho e um subgrupo dos Phu La.
Se os visitantes quiserem aprender sobre a nossa cultura, precisam de ir mais longe a locais tradicionais, e não apenas aos arredores da vila de Sa Pa. Levo os clientes a fazer caminhadas pelas montanhas até à minha casa, onde podem ficar comigo e ver como vivemos, bem como todo o trabalho que fazemos em casa.
Como é a vida como membro da etnia H'mong Negra?
O meu povo, os H'mong Negros, vive habitualmente em pequenas aldeias nas montanhas. Todos se conhecem. Cultivamos a nossa própria comida e cozinhamos tudo fresco na fogueira. Vivo a cerca de 20 minutos de mota da vila de Sa Pa, mas é uma caminhada de duas horas. Antes das motas, íamos a pé a todo o lado! As pessoas mais velhas costumam dizer que nós, as gerações mais jovens, somos preguiçosos.
Temos muitas tradições antigas que ainda mantemos, particularmente o xamanismo e a medicina tradicional com ervas. Há muito tempo, a maioria das pessoas acreditava apenas no xamã, um curandeiro espiritual que ajuda as pessoas quando estão doentes. Hoje em dia, as pessoas acreditam numa variedade de religiões e na medicina ocidental, mas o xamanismo continua a ser uma parte importante da nossa cultura.
Muitas pessoas na aldeia também são muito peritas em medicina herbal. Aprendem-no com os pais ou com os anciãos da aldeia. O meu pai é xamã e a minha mãe é especialista em plantas medicinais. Ambos conseguem ajudar muitas pessoas e sinto-me muito orgulhosa por ser filha deles!

Que outras atividades há para fazer em Sa Pa, para além de caminhadas?
Há imenso para fazer! Se os viajantes vierem na época certa, podem juntar-se a nós e ver como trabalhamos numa quinta local, a plantar arroz e a processar colheitas. Os banhos de ervas medicinais dos Dzao Vermelhos também são muito bons. Já fui aos de Sapanapro algumas vezes e gosto imenso! Dizem que são bons para os ossos e para a saúde em geral. Se visitar os banhos com uma guia Dzao Vermelha, pode ficar na casa dela para almoçar a seguir e aprender um pouco mais sobre o modo de vida dos Dzao Vermelhos.

Em termos de comida, pode provar enguia, grilos e rãs — são muito saborosos! Também temos aulas para aprender o batik e o bordado tradicionais dos H'mong. O batik demora menos tempo a fazer do que o bordado. Pode fazer uma peça pequena para levar para casa em apenas um dia.
Há alguma comida específica em Sa Pa que os visitantes devam provar?
Em Sa Pa temos um vegetal chamado “su su” (chuchu) que é cultivado aqui. O tofu aqui é fresco — fazemo-lo fresco todas as manhãs — e temos uma larva muito saborosa que tiramos do bambu. Se vier na época certa, deve prová-la! A melhor forma de provar a comida de Sa Pa é fazer uma caminhada com uma família local, que o levará ao mercado local para escolher ingredientes frescos e depois levá-los para casa para cozinhar.
Quais são algumas boas recordações que os viajantes podem comprar em Sa Pa?
As melhores recordações estão nos fundos do mercado de Sa Pa e no piso superior. Esta parte do mercado é para as mulheres locais e o que elas vendem é autêntico e de boa qualidade. Há senhoras que andam pela vila, mas isso muitas vezes pode parecer apressado e insistente. No mercado, tem tempo para espreitar com calma. Antes de comprar algo, deve perguntar à vendedora quanto tempo demorou a fazer, para poder fazer um negócio justo com ela.

A única exceção são as pulseiras e as joias. As mulheres locais nas ruas têm as joias de melhor qualidade. Além disso, elas usam as suas peças nos pulsos e no pescoço, pelo que muitas vezes foram um pouco desgastadas nas bordas e não são afiadas como as dos mercados.
O que é necessário para fazer um fato H'mong Negro?
Na cultura H'mong Negros, fazemos as nossas roupas a partir do cânhamo. Demoramos quase um ano a fazer um trajar novo. Primeiro, cultivamos o cânhamo durante três meses, plantando por volta de março e colhendo em junho. Quando está alto o suficiente, cortamo-lo, retiramos as folhas e deixamo-las a secar ao sol durante cerca de 10 dias.
Depois disso, descascamos lentamente a casca — é isso que usamos para as nossas roupas. Primeiro, batemo-la para a encaracolar e depois juntamos os fios à mão para fazer um cordão longo. A seguir, fervemos o cordão com cinza da fogueira durante três dias para o tornar branco e macio. Depois, fervemo-lo com cera durante algumas horas para tornar o cânhamo ainda mais macio.

Depois disso, alisamos o cânhamo rolando-o debaixo de uma pedra grande. É preciso fazer isso durante um dia inteiro: rolar o cânhamo, pendurá-lo a secar e depois rolá-lo novamente até estar completamente seco. A seguir, levamo-lo para um tear, tecemos o tecido e tingimo-lo com índigo. Demoramos de quatro a seis meses só para tingir o tecido.
Todo este processo é muito importante para os H'mong. Fazemos as nossas roupas para vestir em cada Ano Novo para o festival. Assim que o tecido está tingido, decoramo-lo. Faço principalmente bordados e costura, mas as pessoas mais velhas fazem batik. Sinto-me muito bem e muito feliz por poder fazer algo e vesti-lo eu própria. Não compro a outras pessoas. Tem um significado muito especial.




